Topografias da multiplicidade. Imagem como espaço relacional

dc.contributor.authorTaveira, Rogério
dc.date.accessioned2025-12-09T19:16:43Z
dc.date.available2025-12-09T19:16:43Z
dc.date.issued2025
dc.description.abstractAo conferir visibilidade à singularidade dos rostos e corpos que compõem o tecido heterogéneo de uma comunidade envolvida num processo de arte pública socialmente engajada , o trabalho fotográfico aqui apresentado assume-se como parte integrante da lógica coletiva que estrutura a criação participada, não se colocando em oposição a esta. Pelo contrário, reconhece e afirma essa lógica como matriz política e poética fundamental ao campo de enunciação onde esta série se inscreve. Este conjunto de retratos não se apresenta como documentação externa ou registo distanciado, mas como gesto profundamente imbricado no processo de individuação, que procura reinscrever criticamente o dispositivo fotográfico — historicamente associado a práticas de vigilância, normatização e apropriação — num regime de relação horizontal, eticamente partilhável e politicamente situado. Importa sublinhar que este gesto não resulta de uma decisão metodológica apriorística nem da aplicação de modelos exteriores. Ele emerge como uma resposta situada, contingente e profundamente enraizada no próprio processo coletivo, particularmente face à desconfiança e tensão suscitadas pela presença dos dispositivos de registo — câmaras fotográficas e de vídeo — que eram legítima e compreensivelmente percecionados como extensões de regimes de controlo, extração e distanciamento. A sua presença reinstalava, mesmo que involuntariamente, dinâmicas hierárquicas que o processo aspirava suspender. Diante desta tensão, revelou-se crucial reinscrever a câmara num espaço de relação ética, concebendo práticas que contrariassem a lógica histórica de apropriação que estrutura o ato fotográfico. Nesse sentido, optou-se por um gesto aparentemente simples, mas profundamente transformador: fotografar cada participante e devolver-lhe, depois de impresso, o seu próprio retrato. Este ato de devolução desloca a prática fotográfica de um regime de apropriação unilateral para um regime de partilha, cuidado e reconhecimento mútuo. Ao afastar a fotografia da sua função instrumental, este regime relacional contribui para um exercício de descolonização do olhar, reinscrevendo o sujeito fotografado como co-agente ativo na construção de um espaço visual sustentado numa responsabilidade recíproca. Embora esta série dialogue obliquamente com determinadas genealogias do retrato fotográfico — em particular com as práticas de frontalidade e repetição formal —, não se ancora numa tradição visual enquanto fim em si mesma. O dispositivo fotográfico é mobilizado não enquanto instrumento taxonómico nem como tecnologia de ordenação tipológica, mas como resposta a um imperativo ético e político: a necessidade de construir um espaço de relação horizontal e de suspender a suspeita intrínseca ao ato de fotografar. A imagem torna-se, deste modo, um espaço de encontro e intervalo, que abre uma relação entre sujeito e fotógrafo, entre visível e enunciável, entre abertura ao outro e opacidade irreduzível — operando, portanto, no campo político da partilha do sensível. Delineiam-se assim topografias da multiplicidade: cartografias precárias, desenhadas pela justaposição de singularidades expostas, que recusam a homogeneização simbólica sem abdicar da partilha. O gesto proposto busca abrir um espaço deliberadamente desestabilizado, favorável ao afloramento de outras formas de presença, atenção e escuta que recusam o reconhecimento identitário. O comum, aqui proposto, constrói-se na exposição conjunta da diferença, no confronto contingente e no atrito produtivo daí emergente. O que se propõe, em última instância, é um reposicionamento das fronteiras do visível e das formas possíveis do comum. A operação fotográfica que sustenta esta proposta não visa capturar ou fixar identidades, mas convocar presenças e sustentar, no plano da imagem, a tensão irreconciliável entre o um e o múltiplo, entre o sensível e a sua partilha. Ao recusar o encerramento do reconhecimento imediato, estas imagens insistem na abertura de um espaço relacional no qual a visibilidade deixa de ser um dado naturalizado para se constituir como construção provisória, habitável e necessariamente partilhada.
dc.identifier.issn2182-4339
dc.identifier.urihttps://hdl.handle.net/11144/7598
dc.language.isopor
dc.relation.hasversionhttps://doi.org/10.26619/2182-4339/27EV
dc.rightsopen access
dc.rights.urihttp://creativecommons.org/licenses/by-nc/4.0/
dc.subjectRetrato fotográfico
dc.subjectIndividuação
dc.subjectMultiplicidade
dc.subjectEspaço relacional
dc.subjectPolítica do sensível
dc.titleTopografias da multiplicidade. Imagem como espaço relacional
dc.typeother
oaire.citation.conferencePlaceLisboa
oaire.citation.endPage105
oaire.citation.issue27
oaire.citation.startPage96
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